sábado, 7 de março de 2009

A BUSCA DA “ARCHÉ” - brevíssima revisão das proposições dos Pré-Socráticos Naturalistas

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Primeiramente, cumpre definirmos: o que seria a “arché”? Em termos bem resumidos, mas sem muitas divagações, “arché” vem da palavra grega “αρχή”, que pode ser traduzida como “origem” ou “fonte”. Assim, a busca da “arché” - que foi o principal foco dos primeiros filósofos da história - é a busca do “elemento primordial que é o fundamento e origem de tudo”. Esses primeiros filósofos são correntemente chamados de “naturalistas” em razão de suas teorias e idéias priorizarem a cosmologia, incluída naquela parte da filosofia que tradicionalmente era chamada de “física”. Os “naturalistas” também podem ser contados entre os “pré-socráticos”, por trabalharem com conceitos anteriores aos propostos por Sócrates, filósofo que representou um notável ponto de inflexão e cujas idéias modificaram radicalmente os rumos do pensamento ocidental.

Unindo essas duas classificações, no nosso contexto estamos definindo como “pré-socráticos naturalistas” aqueles filósofos anteriores aos sofistas, compreendidos, grosso modo, entre Tales e Demócrito. Vamos comentar a respeito de alguns deles, sem a menor pretensão de exaurir todos os nomes e fazendo apenas uma apanhado geral.

Mapa da Grécia Antiga (dir.) e da Jônia (esq. - atual Turquia), na qual se situava Mileto, terra natal de Tales e demais primeiros filósofos.

“Tudo é água” – é o que nos restou de Tales propriamente dito. Embora tudo que Tales tenha escrito (se é que escreveu) tenha se perdido, sua fama foi passada para a posteridade já pelos primeiros doxógrafos, sendo um dos “sete sábios da Grécia Antiga” e considerado o “primeiro filósofo” da história - aquele que funda, por assim dizer, o método filosófico, invenção grega por excelência, baseado no uso da razão para explicar o mundo.

Embora uma sentença – “tudo é água” – possa ser considerada muito pouco, o pensamento filosófico, com essa única afirmação, nos apresenta conclusões importantíssimas, numa solução de continuidade que rompe com as explicações mitológicas e suas teogonias. Essa afirmação inaugural do novo discurso do pensamento ocidental nos diz que “tudo”, ou seja, “o mundo como um todo e toda a existência”, por mais que apresente uma evidente diversidade, tem uma fonte única em comum, baseada num elemento primordial. Na visão de Tales, seria a água.

Inequivocamente, trata-se de um conceito revolucionário:

- primeiro, porque prescinde de explicações sobrenaturais e antropomórficas, ou seja, de um deus que crie o mundo a bel prazer, ou que dê origem a tudo por meio de uniões conjugais com outros deuses;

- segundo, porque mesmo sem nenhuma comprovação experimental, vai além das aparências da multiplicidade, buscando uma origem única que - não obstante invisível ao mundo sensível (pode-se dizer: ao “homem comum”) - torna-se alcançável pelo uso da razão.

Aqui já temos um fato capaz de provocar tanto o “espanto” platônico quanto a “admiração” aristotélica: fica plenamente justificada a tradição de considerar esse o ponto de fundação da Filosofia.

A seguir, temos uma nova versão dessa solução, apresentada por Anaximandro: a origem é o “ápeiron” – termo que, literalmente, significa “sem limite”. A totalidade não é fundamentada num elemento que exista macrocosmicamente no nosso mundo comum, mas, sim, num elemento “imponderável”, que de alguma forma dá existência à totalidade de todas as “coisas” conhecidas. Certamente, essa é uma hipótese que alcança um grau maior de abstração do que identificar a essência primeira com um elemento conhecido - um grande passo para o aprimoramento do pensamento racional.

Seu seguidor Anaxímenes, no entanto, aponta novamente um elemento reconhecível no mundo fenomênico: o “ar” seria o elemento primordial. Embora não seja o foco principal da nossa discussão, vale ressaltar que Anaxímenes vai além de simplesmente apontar uma origem, oferecendo uma explicação do processo de formação dos demais elementos a partir do “ar”. Por exemplo: a rarefação, criando o fogo; a condensação, criando a água e, em maior grau, a terra. Com essas explicações racionais, o conceito de ´physys´ - entendido como “processo pelo qual o elemento primordial origina o mundo” - toma uma melhor elaboração.

Os três precedentes são chamados de “milesianos”, por serem oriundos da cidade de Mileto, na Jônia (Ásia Menor, atual Turquia), mas do lado oposto das regiões colonizadas pelos gregos, na Magna Grécia (atual península Itálica), surgiu uma importantíssima figura: Pitágoras. Esse pensador, mesmo em vida, já havia se transformado em quase-mito, a ponto de não sabermos o que é ensinamento do próprio Pitágoras e o que é ensinamento de sua escola e de seus discípulos.

A filosofia pitagórica abstraiu o elemento primordial de forma mais radical ainda que o “apeíron” de Anaximandro, elegendo os “números” como fundamento da existência. Ainda que muito influenciados por idéias místicas, os pitagóricos utilizaram igualmente dados empíricos: segundo a tradição, descobriram as leis matemáticas subjacentes à música por meio do monocórdio. Pelas suas atividades de experimentação como forma de obtenção de conhecimento, não é de todo descabido considerá-los como antecessores dos futuros métodos científicos propriamente ditos.

Encontramos, então um par de pensadores quase antípodas: Heráclito (na Jônia) e Parmênides (na Magna Grécia), dois grandes gigantes do pensamento seminal filosófico, cujas teorias não se concentraram tanto na discussão de qual seria o elemento primordial em si, mas revolucionaram a forma do filosofar e influenciaram todo seu desenvolvimento posterior. É verdade que Heráclito teria postulado que o elemento primordial seria o “fogo”, mas a grande idéia do seu legado (talvez a mais popular, sem que seu pensamento se reduza a ela apenas) foi o conceito do “devir”, do “rio no qual nunca nos banhamos duas vezes”.

Num discurso diametralmente oposto, Parmênides estabelece que o “ser” é uno eterno, imutável, e que o “não ser não pode ser” (qual seja: não existe). Embora num primeiro momento possam parecer quase absurdas (pois que seriam refutadas de forma óbvia pelo mundo fenomênico), as teses da escola eleata forçaram um amadurecimento do exercício do pensamento (e seriam, inclusive, essenciais para as fundamentações do “átomo” de Demócrito). Veja-se, por exemplo, as teses de Zenão, que tentaram provar, por absurdo, que o movimento não existia. Não por acaso, Parmênides é considerado o precursor da “ontologia” e Zenão, o da “dialética”.

Mapa da Magna Grécia (atual Itália), colônica grega na qual se estabeleceram dois dos mais importantes filósofos da antiguidade: Pitágoras e Parmênides

Ventos novos: se inicialmente Empédocles parece apenas atualizar as idéias de uma ´physys´ baseada num elemento do mundo natural, propagando o “pluralismo” e elegendo não apenas um, mas quatro deles (a terra, a água, o fogo e o ar) como a origem do mundo, na verdade, ele apresenta uma nova hipótese: as “coisas” não são geradas pela transformação dos quatro elementos em si mesmos, mas pela “combinação” dos mesmos, em diferentes porções. Assim, o processo de formação e estruturação do mundo não parte de mudanças “qualitativas”, mas sim, de mudanças “quantitativas” dos elementos primordiais – que permanecem os mesmos em sua essência.

Anaxágoras radicaliza essa tese pluralista e adota não apenas quatro “raízes” das coisas, mas uma infinidade delas, tantas quantas são as matérias formadoras do mundo. Como que faz cada coisa ser que uma espécie de “agregado macroscópico de si mesma”: por mais que se parta uma matéria, ela será infinitamente constituída de si mesma, indefinidamente. Essas raízes teriam sua origem nas “sementes” (homeomerias) – que seriam, em última análise, o elemento essencial inesgotável, que gera todos os demais, infinitos em número e em qualidade. Cada “coisa” macrocóspica tem a natureza dos elementos que nela predominam e fazem-na ser como é. A idéia é que “tudo estaria em tudo”, permitindo o desenvolvimento das coisas a partir do crescimento e da conseqüente divisão na escala macroscópica.

Finalmente, Leucipo e seu discípulo Demócrito propuseram um termo que a ciência, posteriormente, iria adotar definitivamente (ainda que significando algo essencialmente diferente da idéia original). Foi criado o conceito de “átomo”, palavra que significa “sem divisão”. Os átomos representariam a parte mínima da matéria, sendo indivisíveis e indestrutíveis, todos iguais em essência, qualitativamente sempre os mesmos. Apresentariam apenas diferenças de forma, que os capacitariam a ordenarem-se de diferentes maneiras e em diferentes posições, daí surgindo a diversidade verificável no mundo. Apesar de os átomos serem algo equivalente ao “ser” parmediano, Demócrito desrespeitava uma tese essencial de Parmênides e propagava igualmente a existência do “não ser”, que na sua visão seria o “vácuo”, espaço vazio entre os átomos – um conceito essencial para o processo de formação através da movimentação e da combinação desses átomos.

Embora a mente científica moderna, num primeiro instante, possa considerar algumas dessas idéias como disparates ou ingenuidades do pensamento, temos de ressaltar que não há como comparar cientificamente os conceitos dos chamados “filósofos naturalistas” com as descobertas científicas atuais – pela simples razão de que as hipóteses daqueles filósofos não eram “científicas”. Por outro lado, não há como desconsiderar a importância do método filosófico, baseado na razão, para o desenvolvimento da própria Ciência em todas as suas vertentes.

Outro fato notável é que mesmo a atual pesquisa científica de ponta não chegou ainda a conclusões últimas sobre a constituição fundamental da matéria. Descobriu-se o átomo (agora considerado sob o conceito moderno), que inicialmente seria indivisível, mas depois se verificou ser ele constituído por partículas – elétrons, prótons e nêutrons – por sua vez também constituídas por outras partículas menores fundamentais, cuja natureza ainda é cercada de muitos mistérios.

Podemos lembrar também, a título de exemplo, uma teoria muito em voga na pesquisa mundial: a Teoria das Cordas, que defende que a unidade básica constitucional do mundo se encontra em minúsculas cordas unidimensionais, todas essencialmente iguais, que gerariam a diversidade das coisas simplesmente pela diferenciação de sua vibração. Pensando bem, não é uma idéia tão menos “fantástica” que a unidade básica proposta pelo “ápeiron” de Anaximandro, pelo conceito dos “números” pitagóricos ou mesmo pelos “átomos” qualitativamente únicos, que se diferenciam apenas na forma de se combinar, de Demócrito.

Muito antes de serem considerados “ingênuos”, portanto, o que deve ser digno de admiração é o fato de que esses pensadores buscaram explicações que penetrassem o âmago da matéria sensível se utilizando unicamente do pensamento racional - apresentando, cada um a seu modo, respostas possíveis. E essas primeiras tentativas de “descortinar a realidade” foram elaboradas sem aparatos tecnológicos disponíveis e sem precedentes sobre os quais pudessem se basear, já que estavam inaugurando uma nova forma de conhecimento – O DISCURSO RACIONAL SOBRE O QUAL SE FUNDA O PENSAMENTO FILOSÓFICO.

2 comentários:

Milton Cunha disse...

Oi, Eric. Parabéns pelos pensamentos. Blog bacana e culto. Quero uma cópia do vídeo do meu desfile. Pode me dar? Mil beijos. Vou indicar o blog pros meus leitores. Saravá.

ERIC disse...

MILTON,

Obrigadão pelas palavras! Sou um grande fã do teu blog e espero que todos dêem uma olhada lá. Sua sinceridade e capacidade enfocar os assuntos relevantes são ótimos. Gravação está a caminho. Abração!